7.19.2008
7.07.2008
a greve
A falta de repertório sonoro nasceu de noites inteiras cuja escuridão estampada de sensações me traz o sono e ele me leva, transformando a escuridão em platéia única para David Gilmour. Revoltado pela falta de audiência, aquele aparelho de som antigo, dos anos 70, herança do lixo pós-modernização de casa de parentes e que toca fita cassete como se estivesse em vácuo, declarou greve e me deixou nas mãos do silêncio. O único som presente agora é o do lápis ligeiro, que em movimentos apressados, tenta acompanhar a velocidade da mente e transpassá-la para o papel. Ouve-se também o ruído de biscoitos sendo despedaçados e induzidos a uma dança com a língua dentro da boca.
A greve parece querer habitar também a já cansada mente e mãos, buscam nos movimentos mais leves, as palavras, e nas palavras, a cura. Todavia, é uma grande pretensão buscar a cura se não se sabe bem ao certo qual é a doença. E a greve é agora um maço de algodão aquecido, comprimindo meus ouvidos, numa tentativa mórbida de trocar o zumbido da dor pela própria dor de comprimir os tímpanos.
A greve agora habita as veias, que parecem ter perdido o fôlego para continuar a estimular o velho sangue a correr. A greve sou eu. É uma carência de coragem, que faz meus pés ficarem imóveis dentro do par de chinelos de pano, em vez de encostar nos tubos cilíndricos com espirais alaranjados do antigo aquecedor de ambientes, o que no fundo compõe meu desejo, mas não minha coragem. O contato com o aquecedor faria o corpo sentir algo que não o vácuo de esmo em que fui jogada. Mas o ato de auto-flagelo não passa de outra pretensão, a coragem está em greve, está em greve, sempre esteve. O eco dos pensamentos de poucas palavras também é responsável pela dor. A visão busca na opacidade voyeurista de espiar pela fresta das pálpebras quase unidas, o seu próprio mundo. Mas há greve até para impedir esta façanha. A greve do sono construiu linhas invisíveis que puxam as pálpebras em movimentos anti-gravitacionais. A greve das mãos não quer que tudo seja contado. A greve da memória recusa-se a registrar novas greves. A greve não passa de um deserto de areia movediça para o nada e eu estou calma a afundar.
[l.n.r. há tempos]
