8.25.2008

Memórias Eróticas de 2006.

Era lei seca. Pelas ruas, a luz amarelada dos postes curitibanos revelavam cada vez mais rostos deprimidos pela censura ao alcool naquele dia. Estranhei não estar naquele estado de desânimo coletivo. Devia saber que um delicioso destino, com belas curvas e olhos azulados, estavam indo ao meu encontro naquela noite. Devia saber também que não foi por mero acaso que recusei trocar de lingerie com uma amiga quando esta me pediu que fosse ao banheiro com ela e me mostrasse os trapos horrendos e beges que suas roupas escondiam, dizendo que não sabia que seu novo namorado a levaria a um motel depois do bar, implorando pela minha roupa íntima impecável.
Poucos lugares abriram suas portas na véspera de eleição, mas estava decidida a brilhar sob a luz do strobo de qualquer lugar, por mais "pão-com-ovo" que fosse. Sim, fomos ao Época. Atualmente conhecido como New SPM. Levei dois caras que tinha conhecido no bar anterior para conhecer a balada, dois HÉTEROS, claro, pois me sentia ousada.
Quando chegamos, senti-me mais deprimente que os olhos 'pidões' dos alcoólatras que não podiam beber, "quanta gente feia!". Mentalizei uma frase tranquilizadora: Foda-se! Como se já não bastasse o fracasso inicial, dei de cara com uma ex-namorada e seus amigos "funga-funga", com quem eu não tinha muita simpatia na época, mas o efeito "foda-se" funcionou novamente.
Uma das únicas coisas que gosto no Época são as plataformas individuais e altas, onde se dança como verdadeiras drag-queens. Deixei os héteros na pista e minha ousadia subiu até a plataforma do meio, fechei meus olhos e dancei, convencida de que não havia nada de interessante para olhar naquela pista. Mas algo puxou minhas pálpebras pra cima e iluminou apenas um pontinho daquela muitidão: Linda!
Desci na hora e fui falar com o Evandro, um dos héteros, e ele também estava de olho nela. A menina era visivelmente HT, até um gaydar produzido pela NASA falharia com ela. Mas nem liguei para esta aparência, combinei com o Evandro, que já estava flutuando em direção à ela, que se ela não fosse HT, ele não seria chato em ficar insistindo e eu entraria em ação. OK.
Depois de uns 30 segundos o Evandro volta dizendo ter perguntado se ela era "entendida", e que ela respondeu: "ENTENDIDÍSSIMA!", assim mesmo, com ênfase. Eis que o "destino" finalmente me encontrou.
Suas Feições revolucionavam o meu sentir. Não poderia hever dilema capaz de desviar o meu desejo. Ah, e que desejo! Desejo hipnótico, grande demais para ocupar apenas meu mal-desenvolvido peito. Ainda assim, comprimiu-se naquele nicho de entranhas e encontrou conforto, mesmo a minutos de explodir. Sentia o sangue feroz percorrendo loucamente as veias, lutando contra a violenta pulsação. Estava quente como num banho de sol em pleno meio-dia. Ao abraçá-la, sentia suas perfeitas curvas encaixando-se nas minhas. Seus deslizes aos meus toques mais sutis revelavam a frequencia perfeita dos seus sentidos, e quanto mais eu percebia, mais louca eu ficava, despindo-me de todo o pudor.
Havia uma voz interna que não parava de sussurrar palavras que minha consciência sã não aceitaria. Sentia-me entornando doses de descontrole cada vez que seus provocantes lábios beijavam os meus. Exercia a vontade de beijar cada milímetro quadrado daquele corpo, como se meus lábios fossem um portal para todo aquele desejo personificado e misterioso.
Inalava o intenso aroma natural das finas e arrepiadas mechas em sua nuca e escrevia palavras recheadas de volúpia com a língua em seu pescoço. Sentia sua intensa respiração em meu ouvido como aplausos após a primeira música de um show.
Maldita hora que decidira fazer aquele convite malicioso. Soava como uma tentação benigna, um pecado previamente perdoado, um caminho cujos obstáculos pareciam microscópicos. Deixei-me seguir aquele delicioso fluxo, não conseguia deslizar meus olhos dela. Minha fóvea tornara-se seletiva, de modo que, literalmente, eu só tivesse olhos para ela. Nem notei quando passei pelos héteros e mais uma meia dúzia de caminhoneiras conhecidas no caminho da saída. Estava num rio sem afluentes cujo leito tinha como destino único o paraíso revestido de lençóis. E segui sem hesitar, loucamente pela estrada das curvas quentes para a qual doei toda a minha devoção.

8.14.2008


i've had a hole in my heart for so long
i've learned to fake it and just smile alone